UNILEHU

Universidade Livre para Eficiência Humana

A UNILEHU é uma instituição sem fins lucrativos que promove a valorização da diversidade, através de ações inovadoras para inclusão da pessoa com deficiência no mercado de trabalho.

Saiba mais sobre a Unilheu

Home | Artigos | Educação para a diferença

Artigos

EDUCAÇÃO PARA A DIFERENÇA: PÚBLICO E COMUNIDADE DO MUSEU

Viviane Panelli SarrafConsultora Especializada em Acessibilidade de Museus e Centros Culturais

A inclusão de pessoas com deficiência nos museus se tornará um paradigma de fato, a partir do momento em que o convívio com a diferença se tornar efetivo. Conviver com a diferença é respeitar a singularidade de relacionamento com cada indivíduo.

Eu sou de um jeito, você é de outro, mas precisamos nos respeitar mutuamente para que nossa relação seja harmoniosa e enriquecedora. Pessoas com deficiência são diferentes das que não tem deficiência, e são diferentes entre si, mas existem algumas características comuns que devemos entender e respeitar.

Sabemos que bebês choram alto, crianças são agitadas e derrubam coisas, adolescentes são teimosos, mulheres são mais sensíveis, homens são mais racionais. Reconhecer e respeitar estas características nos ajuda a estabelecer uma convivência harmoniosa com a sociedade.

Pessoas com deficiência visual total recebem informações culturais por meio do tato e da audição, prioritariamente, pois não possuem a visão. Pessoas com deficiência visual parcial precisam aproximar-se muito de um objeto ou texto para identificar seu conteúdo. Pessoas com deficiência visual total precisam da descrição detalhada de ambientes e imagens para compreendê-los, pessoas com deficiência visual parcial precisam de uma comunicação visual baseada em contraste de cores para facilitar seu entendimento.

Estas informações são importantes para possibilitar o relacionamento com pessoas com deficiência visual nos museus e instituições culturais. Mais importante talvez seja proporcionar a convivência com pessoas com deficiência nos equipamentos culturais: por meio de programas de visitação, oferta de cursos, eventos culturais, vagas de emprego, programas de voluntariado.

Em sua instituição algum posto de trabalho é ocupado por pessoas com deficiência? As exposições e demais espaços (biblioteca, cafeteria, auditório, etc.) são adaptados para pessoas com deficiência e dificuldade de locomoção? Existe um programa educativo inclusivo em sua instituição?

Todas as equipes do museu sabem que existe um atendimento, um curso, eventos ou vagas de emprego para pessoas com deficiência? Você já teve a oportunidade de observar como um segurança, recepcionista, montador, restaurador, assessor de imprensa, designer gráfico, educador, arquiteto, diretor, conselheiro se comporta ao ver ou ouvir informações a respeito de pessoas com deficiência? Que tipo de atitude é comum?

E os visitantes usuais da instituição, como lidam com a presença de uma pessoa com deficiência no espaço?

Em uma conversa com uma amiga deficiente visual casada com um senhor deficiente visual, ouvi o seguinte relato: Eles moram em um apartamento há aproximadamente 10 anos. Quando se mudaram para o imóvel todos os moradores estranharam e ficaram extremamente curiosos, as pessoas dos arredores também. Aos poucos os vizinhos se acostumaram com a presença do casal e perceberam que eles tinham uma vida como a de qualquer outro casal: saiam para trabalhar, passear, fazer compras, e outras coisas. Atualmente a convivência é natural, o estranhamento passou.

A inclusão é um processo de mudança da sociedade, no entanto ela só é possível a partir de iniciativas que unem em um mesmo contexto social pessoas diferentes, mas com oportunidades equivalentes. No caso relatado acima, o próprio casal pode proporcionar esta equiparação de oportunidade, bem como outras pessoas, já que para isto dependeram de sua condição financeira, que foi favorável a compra do imóvel em questão.

Quando a inclusão depende da iniciativa de um sistema, aí temos uma terceira figura de extrema importância para efetivar as ações congêneres. Para que exista a vaga de emprego, é necessária a iniciativa do empregador (hoje obrigado por lei de cotas); para que a escola aceite o aluno com deficiência, a direção da mesma deve ter uma política inclusiva e mecanismos de acessibilidade para garantir o desenvolvimento do aluno naquele ambiente. Para que um museu ou centro cultural possa ser acessível às pessoas com deficiência, precisa estabelecer diretrizes para a convivência com a diferença por meio de uma política institucional de acessibilidade, conhecida e praticada por toda sua comunidade.

Para que o museu desempenhe este papel de referência em inclusão frente à sociedade, precisa se preparar para esta tarefa, trazendo informações e conhecimento acerca do tema para toda sua equipe e visitantes. Esta é uma função inerente à natureza dos museus contemporâneos desde que o ICOM ? International Council of Museums (Conselho Internacional de Museus) iniciou sua atuação como órgão regulador das atividades museológicas e patrimoniais. Em diversos de seus documentos (declarações e cartas), representantes de museus de todo o mundo, teóricos da museologia e membros do conselho adeptos à Nova Museologia defenderam a função do museu como agente de desenvolvimento social. O museu em busca de sua permanência no mundo globalizado assumiu então esta função de agente de desenvolvimento e democratização do conhecimento e informação.

No entanto, os museus e centros culturais geralmente têm equipes reduzidas, com remuneração abaixo da média, grandes problemas financeiros, problemas de preservação de seus acervos e muitas outras prioridades. Mas será que não é uma prioridade proporcionar acesso para pessoas que não conseguem usufruir do conteúdo do museu pelas limitações de sua deficiência?

Proporcionar treinamento, encontros, conversas, atividades lúdicas que abordem o convívio com a diferença são formas financeiramente viáveis de educar sua comunidade para a questão da inclusão. Estas iniciativas podem ser gerenciadas pela própria equipe do museu ou com a ajuda de consultores terceirizados. As instituições de atendimento ao deficiente geralmente estão abertas a convites e propostas colaborativas, já que seu objetivo é impulsionar a acessibilidade na esfera social.

Trazer as pessoas com deficiência para os museus e centros culturais, por meio de ações eqüitativas, no entanto é a forma mais eficaz de proporcionar a inclusão, pois vivemos em uma sociedade que defende o respeito à diversidade. As opções de acesso devem ser cada vez maiores e livres de barreiras, pois as pessoas com deficiência lutam diariamente para ter o direito de ir e vir garantido.

Referênciasnstituto Português de Museus. Museus e Acessibilidade. Lisboa: Instituto Português de Museus, 2004. JOFFEE, Elga e SILLER, Ann Mary. Reaching Out: a creative access guide for designing exhibits and cultural programs for persons who are blind or visually impaired. New York: American Foundation for the Blind Press, 1997. Resource: The Council for Museums, Archives and Libraries. Acessibilidade. (Tradução Maurício O. Santos e Patrícia Souza) São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: Vitae, 2005. SASSAKI, Romeu Kazumi. Inclusão: construindo uma sociedade para todos. Rio de Janeiro: WVA, 1997.

© 2005-2008 UNILEHU - Universidade Livre para a Eficiência Humana - Todos os direitos reservados