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Cegos mostram como fazem para driblar a ignorância que encontram no dia-a-dia

Elisa Tecles Correio Braziliense

O instinto guia uma fileira de cegos por corredores desconhecidos em um ambiente onde não há nomes, modos ou princípios. Seguidos atropelos e tropeções são inevitáveis no terreno cheio de obstáculos. Ocorrem com a mesma constância da falta de respeito e da ignorância. Assim como os personagens do filme Ensaio sobre a cegueira — dirigido por Fernando Meirelles e lançado em Brasília na última sexta-feira (não recomendado para menores de 16 anos) —, os portadores de deficiência visual que vivem na cidade enfrentam barreiras físicas e sociais de convivência.

Os cegos imaginados pelo escritor português José Saramago, autor do romance que deu origem à película, ficaram enclausurados pela falta de visão. Deixaram de enxergar o próximo como um humano. Com a telefonista Naara Felipe da Silva Guedes, 27 anos, aconteceu o contrário: a cegueira iluminou a vida dela. "Tive que perder a timidez para me virar e pedir ajuda. Descobri que tenho o dom da fala", disse a jovem. Ela perdeu a visão aos 19 anos, devido a um descolamento da retina em conseqüência da diabetes que carrega desde menina.

Naara pensava que ser cego era como ver uma televisão fora do ar. No entanto, a experiência mostrou que ela não enxergaria mais aquele movimento do cinza trocando de lugar com o branco rapidamente. "Mas quando eu olho pela janela, sei que o dia está claro", explicou. Naara não se intimida com as calçadas quebradas do Plano Piloto, nem com os carros estacionados onde não deveriam. Todos os dias, ela sai do Riacho Fundo 2, onde mora, e segue para a Asa Sul, onde trabalha, passeia e se diverte fazendo compras.

Pegar ônibus seria tarefa fácil para ela, não fosse a grosseria de passageiros e motoristas. "Quando estou sozinha na parada, acontece do ônibus não parar. Alguns motoristas ficam bravos porque eu paro todos para perguntar aonde vão", comentou. E sempre tem aquele que não avisa qual é o veículo certo ou murmura e com má vontade, achando que cegueira pega.

O estudante José Alves Neto, 31 anos, deficiente visual desde os 2 anos, pega o primeiro ônibus do dia às 5h50 e também precisa da ajuda de outros passageiros para subir no veículo certo. Depois de duas horas de viagem (de Águas Lindas até o Setor Policial Sul) prestando atenção nas curvas e quebra-molas, ele percebe que a parada está próxima e se levanta. Sem pedir informação ao cobrador, ele se levanta e desce. Acerta em cheio. "Sei quando ele entra na Asa Sul, sempre sei onde o ônibus está. Só peço ajuda se vou dormindo no caminho ou se quero ir a algum lugar que não conheço", explicou o estudante.

Rotina
O dia-a-dia de Naara e Neto é corrido. Ela acorda às 5h30, faz o café do marido, Davi Sousa Guedes, 28 anos, operador de telemarketing, e arruma o almoço, que leva para o serviço. Trabalha como telefonista do Integra, instituto de apoio a deficientes. Por volta das 16h, o marido (que tem apenas parte da visão) chega para buscá-la e os dois pegam um ônibus até a Rodoviária. De lá, seguem para o Riacho Fundo 2. Às 19h, ela está pronta para a jornada noturna: pega um ônibus até uma escola de Santa Maria, onde está concluindo o ensino médio. Em dia de folga, vai à Água Mineral, clube ou show de música. "Acho que o deficiente visual é capaz de tudo, mas com algumas limitações. Meu único problema é que nem todos os livros existem em braile, então tenho que encontrar alguém disposto a ler para mim", comentou.

Neto passa a manhã no Centro de Ensino Especial de Deficientes Visuais (CEEDV), onde conta com o apoio de voluntário para estudar o conteúdo cobrado em concursos públicos. O material dele é preparado no Centro de Apoio Pedagógico da escola (CAP), especializado em braile. Ele almoça com os colegas e, à tarde, estuda informática no Integra. Segue para a Rodoviária, o lugar mais difícil de se locomover, na opinião dele. "As pessoas esbarram, chutam a bengala, não respeitam mesmo. Você pede informação e elas apontam com os dedos", reclamou. Em meio à multidão apressada, Neto aparenta ser o que mais enxerga entre os passageiros — é um dos poucos que não atropela os outros passageiros. Ele chega em casa e vai ao encontro do filho, João Pedro, 2 anos, que teve com a esposa, também cega.

Neto passou a infância e a adolescência em uma fazenda no interior da Bahia, sem saber o que era bengala ou escola. Aos 25 anos, se mudou para Águas Lindas com parte da família para fazer um tratamento no Hospital de Base. Por aqui, conheceu a sala de aula e aprendeu braile — escrita com pontos em relevo usada pelos cegos para ler e escrever. Saiu de casa e fez amigos. Ganhou liberdade, assim como Naara, poucos meses depois de ter perdido a visão.

Assim que ficou cega, a telefonista ganhou a companhia de uma senhora que fazia tudo por ela: dava banho, separava roupa, etc. Mordomia para alguns, tédio para Naara. Certo dia, ela convenceu a acompanhante a deixá-la sozinha, arrumou o cabelo, pegou algum dinheiro e pulou o muro de casa. Queria aprender a ler, atividade preferida na adolescência. Deu um jeito de chegar ao CEEDV, ganhou uma bengala e marcou a primeira aula de braile. Voltou para casa feliz da vida e deu de cara com o delegado de polícia, que já começava a investigar o sumiço da menina. "Cheguei na maior cara limpa e minha mãe estava desesperada. Mas eu só ficava em casa, não tinha ninguém para conversar, queria sair", lembrou.

Segundo o último levantamento da Codeplan, em 2004 havia cerca de 8,2 mil deficientes visuais no DF. Para o diretor administrativo da Associação Brasiliense de Deficientes Visuais (ABDV), Antônio Wilson Ribeiro, as principais dificuldades em se locomover na cidade são os carros, semáforos não sonoros e desrespeito à faixa de pedestres. "Falta a sociedade se aproximar do deficiente e perguntar como pode nos ajudar", acredita. Outro problema, de acordo com Antônio, é o mercado de trabalho restrito. "O deficiente visual pode trabalhar em várias áreas, como telemarketing ou ascensorista, mas as empresas dão preferência a deficiências mais leves", disse.

Ao final de alguns minutos de entrevista, Naara lembrou que havia chegado o fim do expediente e era hora de encontrar o marido. Sem vacilar, ela abre a gaveta, pega uma chave, levanta, abre o armário, tira a bolsa e guarda o celular. Chama pelo nome a amiga que passou pela porta sem dizer uma palavra e se despede. Volta para a mesa, guarda a máquina de escrever, coloca a chave na gaveta, deixa os papéis perfeitamente empilhados. Pega a bengala, que só usará lá fora, na rua. Desce dois lances de escada sem perder um degrau. A falta de visão a fez perder algo no caminho? Só o olhar apaixonado do marido, que a aguardava na porta.

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